Tantas Faces

sábado, 10 de março de 2012

Foi tentando ajustar o ponteiro...


















Foi tentando ajustar o ponteiro...
Eu deitei em minha pedra fria de mármore.
Eu ficava olhando as sombras na parede... o cinzeiro
Onde caem as pétalas que o invencível descolore.

Tudo pálido e minha pele igual ao mármore,
já era coisa do quarto. Sentia nos lábios o saleiro,
fina camada que o tempo descobre
Das sombras: talvez o sombreiro.

Chorei pedras que me alicerçaram.
E me firmei sobre o que em mim era de Aquiles.
Sou uma destas estátuas...

Que os ventos do inatingível lapidaram
meus olhos imóveis, intactos.. São frias luas.
Passeio no cinza em meu deserto é flor de Íris...

quinta-feira, 8 de março de 2012

O Recruta














Eu saí um instante e vi um mundo pungente
Era escuro, assombrado e um recruta
(do bem) colocava um sol em uma catapulta
Mas as sombras venciam constantemente.

Fugi assustada e me escondi, quase insipiente.
Lugar longínquo fiz minha gruta
Vivi ali: sozinha... matuta...
A me distrair fiz abóbada reluzente;

Com pedras cintilantes eu fiz; aconchego confortável
E o portal é inacessível, inabalável.
Não passo uma noite sem pensar: sozinho...

O recruta... com seu sol... com sua catapulta... sozinho!
E sei que toda noite eu vou ouvir:
"-E você? -Não vai sair?"


Nota: o lugar é a Gruta do Lago Azul, em Bonito, Pantanal, Mato Grosso do Sul, Brasil.

Meu leãozinho


















Onde o oceano contém a rocha mais profunda
Onde guarda a pedra mais encantada
Onde o sol organiza seus corais marinhos,
No inacessível vai nascer meu leãozinho
Um mamífero que sugará meu coração na fronte
                                           [sem estancar
Esta fronte frutífera de estrela e de mar
Com as pontas dos dedos eu vou moldar
as sobrancelhas em saltos de golfinhos
Que vão modelar o mel ao nadar tua risonha face.
Os corais que habitam o inabitado,
[porque é para o mistério o seu paraíso!
Tramarão a trama teia delicada dos teus cabelos
pelo começo, a primavera fábula.
Andará a onda pulsante, acariciar teu pulso no meio
teu primeiro batimento... cardíaco, idílico.
Depois a espuma branca desenhará em minha areia
Na concha, a tua pele, em onda calma.
-pele a pele-
Que vai nascer com um turquesa um celeste
e com celestial velocidade de trem
uma luz de estrela na hora em que a estrela te veste.
Dentes de tubarões famintos se desarmarão...
Amarrarão teus ossos em detalhes distintos.
Corujas despojaram-se de suas penas
vieram doar,
suas plumagens macias pra um voo
                                    [silencioso te ninar.
























"um filhote de leão, raio da manhã..." Caetano

Me sinto só na cidade deserta...














Me sinto só na cidade deserta...
E ninguém me compartilha um vício, sou forasteiro.
Eu tenho na ventania um isqueiro
Para ascender do escuro que me acoberta

Nesse escuro em que tateio nada me liberta
Chove sal o dia inteiro!
Pérolas puras me escorrem das Ágatas e incerta,
(de o que fazer), deixo o meu Palhaço Arteiro

Brincar de as esconder
Com sua caixinha encantada...
Qual será a palhaçada...

que ainda agora ele vai fazer?!
Meus olhos atentos como criança,
aos seus segredos fantásticos e inventos da Esperança.


Nota: a paisagem é o Lago Fryxell, nos Montes Transantárticos, foto retirada da internet.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Os pezinhos que tu não embalasses












Os pezinhos que tu não embalasses
foram pegadas de Apocalipse no coração
Da sagrada aliança que firmasses
Da tua dor terna... a dele proteção.

Os pezinhos que tu não acariciasses
giraram a aliança rígida de resignada aflição
passinho a passinho ouro que derramasses
[dos olhos... a joia pesada da constrição.

Tê-lo e protegê-lo, oposto perverso de pedra
num embalo vago o pensamento na aliança.
-Dura de ouro-

(o teu trato tão caro!)
Em como está teu filho onde balança.
Consolo aflito no canguruzinho vazio, uma pedra.

Me pareceu uma pintura.


















Um dia quando tudo me parecia pálido
E porque este pálido permeava cinza
por toda parte ou ângulo desabitado
onde já houvera cintila ou rosa ou rubro com estrela

E porque o pó me fazia inanimado
ou porque não havia um só amarelo pra que meu Ser fosse calado
Eu ainda perguntava, sem conseguir mover a pálpebra

Tudo me era então gelado
Como um rio em que movesse meus pés sem tê-los preparado
Eu cruzava dia ou noite sem que caísse a penumbra
Pois nem mesmo movia-se por qualquer outra parte
       [luz, cor, céu, pele, tronco...
Que pudesse me pegar pela lembrança
De qualquer coisa que fora aquilo que existira
Ou eu mesma é que fora aquilo que rubrava e que
queimando... estava agora em cinzeiro espesso e névoa fria
por todo o céu e pés espelhado.
E foi que tudo me pareceu como em uma pintura
ou triste ou gótica, não sei. Um eu mau desenhado.

Direitos autorais: Maithê de Oliveira